

Iria deixar o vídeo desta canção, pura e simplesmente neste post. Mas isto, antes das 13h de hoje, quando tive de ir a Picada Café, mais ou menos 15km daqui.
Dia chuvoso, nem um raio de sol pra iluminar o dia. Pelo contrário, ele estava cinza, nebuloso, úmido. Não quis ir, de primeiro momento. Justamente pelo dia estar assim: feio. Mas fui, era a trabalho.
Fui seguindo por Presidente Lucena e já antes mesmo de chegar no meio do caminho, minha emoção ficou a flor da pele. Os plátanos extremamente verdes, iluminados com o pingos de água que caiam do céu. Reduzi a velocidade em meio a tantas e tantas curvas. Quando percebi, não andava com o velocímetro marcando mais de 60 Km/h.
Pelo caminho, além daquele verde exuberante, as flores, cada qual com seu colorido. Passei pelo arroio Veado, em Presidente Lucena, pelo rio Cadeia, em Picada Café e por vários córregos límpidos com sua água cristalina e mais brava que o normal. O barulho dela soava como música. Tão delicada e sutil quanto a música que escolhi para este post logo cedo.
No meu seguir, aos 60Km/h não deveria acabar tão cedo. Com a pista vazia, pude me dar ao luxo de parar no meu da rua e contemplar por alguns segundos o córrego que cortava um potreiro arborizado. Aquelas valas feitas pelo homem, mas esculpida pela força da natureza. Tão clara, tão limpa, tão pura aquela água. As flores de campo, colorindo aquele gramado, algumas pedras em meio ao terreno. Formatos belos… imaginei-me sentada numa delas, com os pés dentro daquela água, num dia de sol. Refrescante!
Queria que o tempo parasse, e que eu pudesse realmente alcançar este desejo. Em pensar que, quando criança, aquilo tudo era parte de mim, da minha infância, das minhas brincadeiras com os amigos. Cheiro de bergamota descascada, ainda em cima da árvore. Pés embarrados de brincar de futebol no potreiro para depois lavá-los nos riachos cheios depois das chuvas.
É, a saudade nos traz coisas boas mesmo. A imagem da natureza, aquele verde vivo, em várias tonalidades, dependendo da espécie da árvore, a pista vazia e cheia de curvas sinuosas, as plantações de alfaces com suas folhas delicadas.
Eu precisava complementar este post. Ficará na minha lembrança um dia lindo, mesmo que não do meu agrado, de maneira geral, pois adoro o sol. Mas a chuva, lavando sua natureza, limpando as cores e deixando-as ainda mais firmes; e o barulho e a lentidão das águas dos rios e arroios pelo caminho me deixaram imensamente feliz. Sai, por algumas horas de meu mundo para entrar num cheio de graça e leveza.
Limpei-me com a chuva, alegrei-me com as cores, emocionei-me com a música e sorri pela vida!
Penso, logo existo -
É neste LOGO que tropeço.
Eu penso e eu sou; haveria mais verdade em:
Sinto, logo sou – ou mesmo: Creio, logo sou – pois isso equivale dizer:
Penso que sou.
Creio que sou.
Sinto que sou.
Ora, desta três proposições, a última apresenta-se a mim como a mais verdadeira, a única verdadeira; porque, enfim, penso que sou, talvez não implique que eu seja. Nem tampouco: creio que sou. Há tanta ousadia em passar de uma a outra quanto em fazer do “creio que Deus é” uma prova da existência de Deus. Ao passo que: “Sinto que sou…” – Aqui ou parte e juiz. Como me enganaria aqui?…
… Penso: logo sou.
E igualmente: sofro, respiro, sinto: logo sou. Pois se não se pode pensar em ser, pode-se ser sem pensar.
Os Frutos da Terra – André Gide

Hoje pela manhã, lendo a revista Claudia deste mês, depois de ter lido todas as revistas da mesinha da sala de espera do consultório da psicóloga, li um artigo da Danuza, dizendo que as mulheres não choram mais.
Eu não choro mais com a mesma frequencia de antes. E o verbo chorar foi muito repetido esta semana para mim. Quase todos os dias, ouvi esta palavra da boca de alguém que eu estava em contato, ou que peguei por ai falando sobre o assunto.
Na mesma revista, uma matéria sobre o Hospital de Câncer de Uberlândia, Minas Gerais. Falava sobre um grupo de voluntários que realiza o desejo, ou melhor, o último desejo dos pacientes terminais com câncer.
Uma voluntária contou em sua entrevista que um dos pacientes teve como último desejo se casar. Sim, namorava uma agricultora que não tinha estudo e seu desejo era casar com ela, antes de morrer. E como diz na própria matéria, não foi um repente romântico, mas sim, uma preocupação dele para com ela. Ela, sem estudo, sem trabalho fixo e carteira assianda agora tem um futuro garantido com a pensão que seu amado lhe deixara. Sim, chorei neste momento. Se isso não é amor, como definir esta palavra então?
Lembrei de muitos episódios em que eu choramingava pelos cantos. Me considero uma pessoa sensível. Mas o que está acontecendo que não choro mais?
Talvez seja a camuflagem que usava para desestressar. Algumas coisas que me faziam enxergar tudo mais brando, mais tranquilo. Uma certa dopagem em baixa dose.
E, coincidentemente hoje mesmo, conversando com um amigo, disse que os fluoxetinas estão na gaveta há mais de dois meses. Sinto perfeitamente que a vontade de chorar surge às vezes. Mas me sinto mais viva, menos covarde, menos camuflada dos meus sentimentos, mais honesta comigo mesma.
Danuza falou das mulheres que não choram mais. Dizia no artigo que as mulheres querem ser valentes como seus homens hoje em dia. É verdade. Mas confesso que, nunca senti tanta faltade ser chamada de sexo frágil.
Talvez Danuza não tenha lembrado que muitas mulhres (e homens também) têm usado de métodos “fortificantes” para enfrentar seu cotidiano. E, consequentemente se sentirem mais fortes e com menos vontade de chorar.
Tenho certeza que os voluntários do Hospital do Câncer de Uberlândia, em suas realizações diárias a fim de amenizar a dor de pessoas com data marcada para partir daqui também choram. Mas devem também chorar lágrimas de dever cumprido.
Hoje, comprovei que meus sentimentos e minha sensibilidade estão vivos. Uma leitura, um depoimento me deixaram emocionada.
Chorar de alegria também faz bem e estou louca pra olhar pro rostinho da minha filha, enquanto dorme e encher os olhos de lágrimas… Vou aproveitar que ela está dormindo e vou lá, me emocionar um pouco e quem sabe, chorar.
Boa noite!


Nem eu mesma sabia
Estava lúcida, porém, nem eu mesma sabia
Sabia da presença
Sentia o cheiro e via a cor
Sabia do que queria
Mas não sabia o que fazer
Como dizer, como fazer
Expulsei meus fantasmas
Sabia que precisava daquilo
Mas não sabia como
Senti o abraço mais apertado do mundo
Aquilo me bastou por uma noite
Sei que quero, mesmo sem saber

Em teus olhos consigo sentir a leveza da lágrima derramada. Sempre que te vejo sinto-me indefesa, esta dor de fazer fechar os olhos num impasse entre o bom e ruim. Cortejo o ventre da imaginação, onde ela sente esfriar suas entranhas e lubrificar seu encanto. Sem ressecar, sem massacrar, sem correr o risco de fazer morrer. Úmido se torna vivo.
Justamente em teus olhos consigo ver essa lágrima derramada e que em teu rosto descansa. Sóbria e quieta, sem mexer em sua essência. Gosto amargo e levemente morno.
O prazer toma conta de todo corpo, que não diferencia da autopiedade e do impiedoso. Sofrer por não se entregar. Por não justificar suas vontades e não arcar com elas ao ponto de calar-se entre teus braços.
Tua boca mistura minha saliva à tua lágrima e provamos do mesmo veneno. Cai em tentação e o que era frio, agora ficou quente. Sem ressecar, sem massacrar. Mistura os sons indecifráveis dos teus gemidos ao do sussurro que vem da rua.
Teus braços seguram o que sente frágil. Tudo é frágil. Mesmo tua lágrima que descansa em teu rosto. Teus olhos fecham para outra lágrima derramar e escorrer entre dois corpos que promovem a autopiedade e o impiedoso.
Quero correr, mas não posso. Tuas pernas e braços, teu peito debruçam forte em meu corpo. Úmido se torna vivo. Tua lágrima desce por teu rosto marcado da vida. Teus sinais me levam ao longe, me fazem contar tua história. Algo nos espera, sob o movimento da tua lágrima que cai, leve, lenta, límpida.
Holocausto
Sinceramente, não sei exatamente o que me motivou a escrever sobre este assunto. Talvez a inconformidade incondicional que sinto. O que sei, é que estou assustada. Assustada com as noticias que tenho lido, imagens que tenho visto nos noticiários, informações que vêm de pessoas da rua… Crianças espancadas, abusadas sexualmente, maltratadas por adultos e pior, por pessoas da família, do seu convívio diário, que dizem amar as próprias vitimas.
Li, hoje de manhã, na Zero Hora, pela internet sobre uma criança de 8 anos que vinha sofrendo abuso por seu padrasto de 54 anos: “Uma conselheira tutelar, que foi procurar a menina na casa do pai biológico, registrou ocorrência. De acordo com a conselheira, a criança não queria voltar para o local onde morava com a mãe porque o padrasto, de 54 anos, abusaria sexualmente dela…
A criança chegou a ser ouvida por uma policial e, em um breve relato, descreveu as agressões que sofreria seguidamente. O homem ainda não foi ouvido oficialmente, mas teria negado a acusação.
No mesmo dia em que a conselheira tutelar registrou a queixa, a mãe a menina foi até a delegacia para fazer uma denúncia contra a madrasta da menina. De acordo com a mãe, a companheira do seu ex-marido daria surras na pequena.”
E conforme ainda, pela reportagem, a criança de 8 anos e sua irmã, de 4 foram encaminhadas a um abrigo e submetidas a exames médicos.
Pode sim parecer clichê, falar de revolta, falar de inconformidade… O problema é que o descaso tornou-se clichê.
Única coisa que posso pensar é que a coisa ta ficando cada vez pior, todos os dias aparecem não apenas uma, mas diversas denúncias, reportagens e notícias de crianças abusadas, espancadas e mortas. A pedofilia, por mais que já existisse e agora está sendo mostrada com mais intensidade, continua crescendo, principalmente pela internet.
Nas escolas, têm sido normal estudantes andarem armados. Hoje ainda, no mesmo momento em que li a reportagem destas meninas, uma outra me chamou a atenção: uma jovem de 17 anos foi morta com 17 facadas e as suspeitas são duas outras jovens, uma de 18 e outra de 19 anos. Motivo: passional.
Aquelas meninas citadas no começo deste texto são vítimas, isto não tem dúvida. Mas fico pensando em como elas se sentirão daqui algum tempo… Hoje, é o trauma do abuso, das pancadas sofridas. E depois? Uma briga entre madrasta, padrasto, pai, mãe, cada qual registrando estas maldades cometidas em crianças inocentes, que ainda não deveriam conhecer este universo de obscenidade e violência.
Realmente não existem mais sentimentos de compaixão, de amizade, de relevância, de sobriedade neste mundo. Isto tudo, deu lugar à frieza.
Sei que estou falando o que muitos já falaram, falam… Mas a inconformidade é grande, principalmente quando penso que tenho uma filha, de 9 anos, estudante, vulnerável ao mundo e o que ele nos mostra.
O egoísmo tomou conta da humanidade. Não se pensa no próximo, ninguém quer saber do problema dos outros porque cada um tem o seu. Ninguém mais oferece um ombro ao seu próximo sem querer algo em troca. Encher a cara ao invés de resolver seus perrengues é mais fácil que limpar a cara e enfrentá-los; bater numa criança e descarregar sua raiva é mais fácil que ir descontar no patrão, no amigo que o insultou ou qualquer outra coisa que seja de homem resolver com homem e não com criança.
Abusar de um inocente, sem defesa física é mais fácil que seduzir uma mulher, conquistar o sexo oposto a fim de uma noite de amor, a matéria carnal é mais evidente que o sentimento.
Confesso que tenho visto isto tudo como um mecanismo. As pessoas estão acostumadas e estão cada vez mais convencidas de que isto tudo é normal, faz parte do seu cotidiano.
Vejo pessoas na rua, que eu conheço, que eu já conversei, que estiveram nos mesmos lugares que eu, viciadas em crack. Em troca da droga se fazem absurdos. Fico pensando… e estas pessoas que estiveram nos mesmos lugares que eu, com quem já conversei… se estas pessoas, viciadas em crack não tiverem a droga num momento em que precisarem, poderei ser a próxima vítima se estiver por perto, porque elas não pensam, agem para obter o que lhes satisfaz.
Isto dá medo. E tenho medo disto. Porque só tenho medo duma coisa, do que não está sob meu controle, ao meu alcance de resolver… Não sou a mulher maravilha, não posso resolver os problemas do mundo, seria muita pretensão, inclusive. Mas saber que não há o que se fazer, que não depende de mim oferecer tratamento aos viciados, carregar no colo as crianças vulneráveis aos abusos físicos e psicológicos, realmente me atordoa.
E se é pra ser clichê, sobre algo que está fora do meu alcance eu pergunto: “onde isso vai parar?”
Era uma vez um menino. Ele nem era mais tão menino assim, mas seu tamanho lembrava um. Braços longos, dedos finos e unhas bem clarinhas. Adorava fazer caretas nas fotografias. Traços finos, olhos puxados e sorriso maroto. Bochechas de dar mil beijos e bumbum de apertar.
Com o batuque ele se completava, mas nem só de tambor ele sobrevivia. Uma orquestra chamava sua atenção. E na verdade, poucos sabiam disso. Costumava das boas risadas, mas nunca escandalizadas. Suas frases, sempre surpreendentes e com máximas de dar inveja a qualquer trovador.
No pôr do sol ele adorava ficar sem fazer nada. Bebidinha, cigarrinho, um boêmio de plantão e ainda metido a metereologista. Escondia sua braveza, escondia suas fraquezas e sentia saudades de seus pais.
Em sua vida, quase tudo mal resolvido e nada mais podia fazer senão conformar-se com a vida de um homem com tamanho de menino. Numa melodia simples, porém intensa e confortante… ali, naquilo, se apegara para transparecer um bom humor de dar inveja. Inveja esta que muitos sentiam por fazer bem feito o que tinha de se fazer. Ninguém mais aceitava perder pra ele. E ele, aceitava não brigar, não bater de frente, apesar de saber que podia mais que qualquer um daqueles.
Como numa melodia simples, sua vida se transformou. Precisou abrir mão de algumas coisas e sequer sofreu por isso. Pelo menos era o que parecia. Bom humor invejável, incontestável.
Sua chatice apertava o calcanhar de alguns de vez em quando, mas não chegava a ser um malefício para ninguém e para absolutamente nada. Um menino homem bem educado, inteligente e extremamente espirituoso.
Não se pode dar murro em ponta de faca. Ele simplesmente não sabe não dizer a verdade. Ele não sabe esconder seus princípios e impulsos. Poucos impulsos. Afinal, se trata de um homem menino extremamente gentil e sereno. Parece que sofre de vez em quando, mas nem quer que isso incomode alguém. Prefere ficar só, na companhia de si próprio.
Quanto mais… quanto mais poderemos ver este menino homem, sentimental moleque de cabelos finos espraiar sua melodia simples e constante?
Suas frases feitas, próprias e particulares… quanto mais elas serão ouvidas?
Quanto mais tiver quem as ouça. Eu estarei lá, para sempre que precisares de ouvidos e de palmas.